quarta-feira, 20 de abril de 2011

Aleatórias: adjetivos

1. Faz dias venho ensaiando escrever este post mas, perdoem-me, as horas têm me faltado. Primeiro porque fui convidada a participar de um edital de seleção de projetos de pesquisa, destes que têm bem mais de meia dúzia de campos para preencher com até exatos 3.000 caracteres e que pedem que você projete a sua vida acadêmica nos próximos vinte e quatro meses. Se nem ao menos consigo manter as promessas feitas ao meu marido de que, sim, iremos àquele restaurante charmoso, que dirá assumir o compromisso de apresentar tal ou qual resultado em tal ou qual período! Mas, dificuldades à parte, reconheço que participar do tal edital não é de todo ruim - afinal o produto - a pesquisa - terá que sair de qualquer jeito e ser remunerada para isso será tanto melhor. Então, não custa tentar. Mas que estou queimando as pestanas para montar uma proposta coerente e factível, ah, isso estou...

2. Em segundo lugar, fui surpreendida com um pedido de uma colega de pós-graduação que, deixada à deriva pela orientadora, precisa de ajuda para compor o texto final de seu trabalho. E aí eu topei "orientá-la", dentre outras razões porque é no mínimo estimulante isso de fazer uma espécie de "oficina de texto etnográfico". Têm sido desafiador e produtivo.

3. Entre um compromisso e outro, consegui dedicar um tempo para conhecer uma nova casa de chá, a filial brasileira da argentina Tea Connection. Chás saborosos, atendimento cortês, ambiente aconchegante, localização estratégica. Na sequência, maridão e eu fomos ao Cine SESC e assistimos ao premiadíssimo O segredo dos seus olhos. Perfecto! Deu uma vontade enorme de voltar a Buenos Aires...

4. De certa forma posso dizer que redescobri o prazer de ir ao cinema quando estive em Toronto. E de certa forma devo agradecer a minha homestay por isso. Explico (e assim recupero aqui mais um episódio de minha experiência de intercâmbio).  

Geralmente as famílias recebem adolescentes cheios de hormônios  pessoas que adoram sair para baladas. Ou intercambistas que querem conhecer todo o pais em um único mês. Para quem abre as portas de sua casa, este comportamento do "hóspede" talvez seja mesmo um alívio: só assim para se ter um pouco de privacidade, não é mesmo? Além do mais, isso significa economia e menos trabalho: as refeições do final de semana não serão consumidas pelo estudante. Privacidade e economia nunca combinaram tanto!

O problema é que eu não estava nesta vibe. Quando parti, até fiz planos de passar as minhas duas semanas de férias em dezembro no assim chamado Canadá francês. Mas Toronto já me oferecia tantas diversões e estímulos que eu achei que seria uma perda de dinheiro e de tempo viajar para outros lugares, por mais bonitos e aprazíveis que fossem. E não me arrependo de minha decisão. Cada um dos dias livres em Toronto foram dedicados a uma nova descoberta (um novo museu, um restaurante, uma paisagem) ou ao prazer de repetir uma experiência dessas. Foi realmente uma viagem inesquecível!

Adicionalmente, quando se parte de um pais sob um sol de 30º C e se está sob neve e uma temperatura média de -15ºC (e sensação térmica de -20ºC) não se tem muita vontade de permanecer na rua. Fora que eu sou uma pessoa caseira,  que se sente muito bem, obrigada, com uma caneca cheia de café ou chá fumegante em uma das mãos, e um livro na outra.
  
Obviamente meus hábitos e minhas escolhas iam na contramão das "regras da casa". Então, volta e meia eu ouvia perguntas do tipo: Mas e você, não vai viajar no final de semana? Não vai sair com seus amigos? Não tardei a perceber que nos dias em que eu voltava mais tarde para casa, ou que passava o sábado todo fora, as pessoas de minha homestay mostravam-se mais felizes. Então passei, mesmo que às vezes a contragosto, a tardar mais e mais a volta para casa e a sair já cedo nos finais de semana.

Não, nem sempre isso foi um sacrifício, fique claro. Pude contar, muitas vezes, com a companhia de queridos colegas - muitos deles que experimentavam algo similar em suas respectivas casas - e foi assim que meu inglês pode ser treinado e corrigido em animadas conversas. Além disso, como em Toronto as bibliotecas são espaços bastante acolhedores e abrem nos finais de semana - saudade disso! - muitas vezes foi lá que eu preparei minhas redações mais elaboradas.

Mas houve momentos, óbvio, nos quais as bibliotecas não pareciam ser tão atraentes e os amigos tinham outros compromissos. E foi em um deles que redescobri o prazer de ir ao cinema. Estímulo adicional foi conferir a programação e encontrar lá a animação L´illusioniste (que em português ganhou o péssimo título de O mágico).

A animação é do mesmo diretor d´As bicicletas de Belleville (que eu amo, amo, amo). Reeencontrei o traço singelo que me encantou anos atrás, mas achei este novo filme bem mais melancólico. Músicas menos pitorescas, cenários e enredo verossímeis, personagens humanos, demasiadamente humanos... Ou vai ver naquele dia quem estava particularmente emotiva era eu (leia-se: chorei no cinema e sai de lá com um nó enorme na garganta...).

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