terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A chegada do ano do dragão (parte II)

We heart it

As boas novas resultaram de um grande esforço e, claro, de escolhas. 

Primeiramente foi necessário sair de minha zona de conforto e, sobretudo, procurar uma dose extra de confiança - que costuma ser artigo de luxo - para elaborar as propostas de grupos de trabalho (GT) para os eventos científicos. Há anos venho manifestando, congresso após congresso, minha insatisfação com o modo com que a atividade de divulgação científica e debate acadêmico vêm sendo organizados. Muitas vezes eu sai de um GT com a sensação de ter frequentado um rodízio de pizza: "degusta-se" uma variedade imensa de sabores, todos em pequenas porções, em meio à pressa dos garçons que nos servem muitas vezes de modo desleixado; no final, a saciedade cede espaço a um peso no estômago e a indisposição é imediata.
Especialmente no último evento a que fui me senti tremendamente desrespeitada:  em virtude do número de inscritos, os coordenadores do GT resolveram dividir o grupo em dois, obedecendo a ordem alfabética para determinar quem iria para qual das metades! Ou seja, só por um golpe de sorte você tinha condições de apresentar seu trabalho ao lado de outros pesquisadores que desenvolviam temáticas afins. Não foi o meu caso, claro.

Alguém poderia ponderar que tal desorganização se deu por conta do porte do evento - o nome "nacional" escondia o fato de que quase todos, sem exceção, eram vinculados ao mesmo núcleo de estudos, de âmbito estritamente local. Mas não é verdade, a dimensão do evento não justifica a má vontade de seus organizadores. Aliás, mesmo nos maiores eventos de minha área coisas absurdas acontecem, como a coordenadora do GT se dar o direito de antecipar a sua própria comunicação para, logo em seguida, abandonar a atividade rumo ao aeroporto. Além disso, neste mesmo GT, o debatedor não leu o paper enviado com meses de antecedência, chegou após minha apresentação e, por conta de sua displicência, não conseguiu fomentar o debate. Muito azar!

Minha irritação foi alcançando níveis tão elevados a ponto de, nos últimos anos, eu ter cada vez mais má vontade de ir a congressos, mesmo sabendo que este ritual acadêmico tem potencial para ser muitíssimo produtivo e enriquecedor. Mas de nada adianta euzinha ficar de braços cruzados, né? Não que eu ache que eu sou mulher-maravilha que vai salvar o planeta Ciências Sociais, longe disso! Mas pelo menos eu vou me esforçar, e muito, para que a dinâmica do GT seja a melhor possível. Isso é um grande desafio, sem dúvida. Meus colegas são um pouco mais experientes que eu e, neste sentido, acredito que iremos conseguir trabalhar bem.

É inegável que a mudança de estatuto acadêmico no primeiro trimestre do ano passado faculta-me estas novas empreitadas. Mas este sentimento de que, sim, é possível tentar e fazer coisas diferentes acho que, de alguma forma, também resulta da experiência canadense, que me fez descobrir uma pessoa mais sociável e aberta à desafios (mesmo que tenha sido um desastre completo tanto a minha tentativa de esquiar quanto a de jogar curling!).

Este mesmo "espírito aventureiro", vamos chamá-lo assim, falta-me, porém, quando se trata de prestar concurso público para professor efetivo. Já tratei anteriormente (como aqui) de como tenho achado surpreendente a minha dificuldade em lidar com estes processos. O que me alenta é que todo mundo que está neste mesmo barco padece das mesmas inseguranças, encontra as mesmas dificuldades. Claro que algumas pessoas driblam seus medos com maior velocidade, o que me faz perguntar, quase diariamente, quando, como e onde é que a gente aprende a ter autoestima para que eu possa me inscrever nesta aula o mais rapidamente possível!

Para além dos aspectos estritamente psicológicos, bem, também tem o volume de trabalho. A definição de estratégias de abordagem de cada um dos pontos não é algo simples. Posso dizer que tive muita sorte no teste seletivo no qual fui recentemente aprovada, pois tanto o ponto que caiu na prova escrita como o da prova didática estavam na lista dos que eu realmente havia conseguido desenvolver previamente; fossem sorteados outros pontos e, provavelmente, meu desempenho seria bem inferior àquele que me garantiu o 1º lugar.

Neste exato momento eu olho para a lista de pontos de outro concurso no qual estou inscrita, mas que acho que não vou prestar. A sensação que tenho ao ler os pontos pode ser traduzida por qualquer interjeição que indique espanto, supresa ou outra emoção relacionada à ansiedade. Ao mesmo tempo, eu sei que já estudei cada um destes temas - ou pelo menos sete deles - ao longo de minha graduação, mestrado ou doutorado, então sempre resta, lá no fundo do coração, aquela sensação de "ai, mas eu podia tentar, né?".

Muitos amigos queridos têm me incetivado a prestar o concurso. É para efetivo, não para substituto, como é o caso de Maringá, e isto lhes parece decisivo. Mas estou realmente inclinada a não fazer as provas, mesmo que com isso ganhe o título de Miss Covardia. É muito dificil traduzir estes sentimentos todos, só sei que sinto que este é um passo que minha perna ainda não alcança, segundo a avaliação que faço (objetivamente, eu sei que não dei conta de definir estratégias de abordagem para mais de metade dos pontos e eu não conto com a sorte que acompanhou em Maringá).

Este impasse todo também me fez pensar sobre o tipo de carreira que se convenciona como ideal. Com quem conversei a respeito do dilema que venho enfrentando, pareceu meio absurdo deixar escapar pelos dedos das mãos a possibilidade de um concurso para efetivo, o que significa, em termos práticos, estabilidade no emprego, salário maior, mais acesso a recursos para pesquisa, etc. Todas estas vantagens são inegáveis, claro. Mas a desvalorização das experiência oriunda da condição de substituto, em contraposição às vantagens da condição de efetivo, tem me incomodado.

Eu tendo a enxergar a coisa mais como um pequeno desvio de rota, se é para aceitar a linearidade que conduz o indivíduo da graduação ao emprego em uma universidade pública. Enxergo na condição de substituto a possibilidade de recuperar o timing de uma aula e daquela boa malícia em conseguir juntar A com B sem isso soar absurdo, por exemplo. E isto me parece extremamente valioso para quem está há mais de sete anos longe de sala de aula (excluindo-se as experiências de monitoria ao longo do doutorado e o curso que ministrei em colaboração com minha supervisora de pós-doutorado no semestre passado, por serem experiências de outra natureza).

Enfim, sigo aqui matutando sobre o assunto e talvez, até o final de semana, eu mude de ideia e embarque para fazer as provas. O que importa registrar neste post, no melhor estilo "caro diário", é que o ano do dragão começou mesmo mobilizando muitas energias. Espero domar o bichinho.


2 comentários:

  1. Super me identifiquei com esse impulso de propor e organizar seu próprio GT devido a insatisfações com os GTs de que vinha participando. Quando comecei, fui movida pela mesma motivação, além de sentir que as coisas que eu realmente queria discutir não tinham espaço nos GTs que encontrava nas programações dos eventos. É isso mesmo, criar seu próprio espaço.
    Agora, após alguns anos, estou novamente descontente com os eventos e estarei indo à próxima ABA meio à força. Não posso explicar aqui, mas, após alguns anos, é como se tivesse me tornado prisioneira do mecanismo que coloquei em movimento. Cobranças de todo lado assim que sai qualquer chamada para novo evento, da parte dos participantes dos últimos anos, que agora já se percebem como 'grupo'. Enfim... parece que as coisas começam a caminhar por conta própria e, quando a gente dá pela coisa, a relativa autonomia e, com ela, o gosto pela iniciativa, foi pro espaço. Estou desde a última RAM (Curitiba) tentando passar esse 'posto' de coordenadora e proponente de GT. Cansei.
    Por outro lado, os eventos estão cada vez mais gigantes e desorganizados, além de aceitarem qualquer coisa, talvez pelo dinheiro. É desanimador. Talvez a saída seja organizarmos eventos menores nas nossas universidades, se tivermos verba pra isso, né?

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    1. Imagino, Tânia, que seja bem frustrante e chato sofrer todas estas pressões. Afinal, a ideia era jogar água no moinho para fazê-lo funcionar, não ficar aprisionada a ele, como você mesma disse. Mas olhando o fenômeno de outro ângulo, talvez isto aconteça justamente devido ao fato do GT funcionar pra valer, daí os reiterados pedidos para que a experiência se repita mais e mais.

      Concordo contigo que os eventos estão ganhando proporções animalescas. E, curiosamente, não abrem mão de uma estrutura engessada. É bizarro! Então, ao invés de você conseguir reunir cada vez mais gente em torno de um interesse comum, o que acaba acontecendo é uma super fragmentação da discussão. Um saco!

      São duas as minhas atuais apostas para tentar escapar desta chatice toda. Uma, é priorizar a participação em eventos temáticos. Acho que, de modo geral, os problemas relativos à organização permanecem - mesmo porque organizar um evento dá um trabalho do cão, você bem sabe - mas a dinâmica das discussões tem chances efetivas de ser um pouco diferente. Há mais de foco, menos gente, e o debate tem mais condições de acontecer.

      Outra, é dar preferência a GT´s que não sejam organizados em torno de um objeto, mas sim de uma questão transversal. Isso meio que elimina a possibilidade de ficar ouvindo contação de causos durante todo o GT, que é outra coisa que me irrita profundamente.

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